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Marcação a mercado: por que seu Tesouro cai antes do vencimento

Entenda a marcação a mercado, por que o preço do Tesouro oscila diariamente, o papel da duration e quando a queda no extrato não representa perda real.

Atualizado em 23/06/2026 Nível avançado Nexo Atual
Marcação a mercado: por que seu Tesouro cai antes do vencimento

Aviso importante: este conteúdo é educativo e não representa recomendação de investimento. Sempre avalie seu perfil de risco e consulte fontes oficiais antes de decidir.

O problema que ninguém explica direito

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Você comprou Tesouro IPCA+ 2035 com taxa contratada de IPCA + 6,5% ao ano. Um mês depois, o extrato no Tesouro Direto mostra −3,2%. A pergunta imediata é inevitável: se a taxa contratada é 6,5%, como o saldo pode ser negativo?

Esse é o efeito da marcação a mercado. Seu título é reprecificado diariamente com base no que o mercado pagaria por ele agora — não pelo que você acordou pagar quando comprou. O extrato reflete o valor de venda imediata, e não o valor que você vai receber se carregar o título até o vencimento.

Compreender essa distinção é o que separa o investidor que entra em pânico e vende com prejuízo do que mantém a posição e recebe exatamente o que foi contratado.

A lógica inversa entre taxa e preço

Títulos de renda fixa funcionam como uma gangorra entre preço e taxa: quando um sobe, o outro desce. Essa relação é matemática, não subjetiva.

Pense assim: você comprou um título que paga IPCA + 6,5% ao ano. Se amanhã o Tesouro emite um novo título pagando IPCA + 7%, ninguém vai querer comprar o seu pelo mesmo preço — afinal, o novo paga mais. Para que seu título seja vendável, o preço precisa cair até que o retorno implícito se equipare ao do novo título. Esse ajuste acontece diariamente.

O raciocínio inverso também vale: se as taxas caem para IPCA + 5,5%, seu título passa a valer mais do que o preço de compra. Quem travou 6,5% numa época em que o mercado aceita 5,5% está com um ativo mais valioso do que o mercado oferece hoje.

Taxa sobe → preço do título cai. Taxa cai → preço sobe. Essa relação é invariável em qualquer mercado de renda fixa do mundo.

Duration: o medidor de sensibilidade que poucos conhecem

Saber que taxa e preço se movem em direções opostas é o começo. O próximo nível é entender quanto o preço varia para cada 1% de mudança na taxa. Esse medidor se chama duration modificada.

A duration modificada funciona como um multiplicador de sensibilidade. Se um título tem duration modificada de 8 anos, um aumento de 1% na taxa de juros implica uma queda de aproximadamente 8% no preço. Uma alta de 0,5% na taxa gera queda de 4%.

Quanto maior o prazo até o vencimento, maior a duration e maior a oscilação de preço. Um Tesouro IPCA+ com vencimento em 2026 oscila muito menos do que um com vencimento em 2035 — porque o prazo restante é menor e a sensibilidade cai proporcionalmente.

Isso explica por que dois investidores podem comprar "o mesmo título" — Tesouro IPCA+ — e ter experiências completamente diferentes. O que comprou o vencimento 2026 vê o extrato quase estável. O que comprou 2045 acompanha variações de dois dígitos em ciclos de juros mais intensos.

Marcação na curva vs. marcação a mercado

Nem todo investimento de renda fixa usa marcação a mercado. Esse ponto é fundamental para entender por que o Tesouro Direto se comporta diferente de CDB, LCI ou LCA.

Marcação na curva significa que o retorno acumula diariamente na taxa contratada, sem reprecificação. Se você comprou um CDB a 115% do CDI, o extrato sobe todos os dias na proporção dessa taxa — nunca mostra variação negativa enquanto o emissor estiver solvente. Essa é a regra para CDBs, LCIs e LCAs mantidos até o vencimento.

Marcação a mercado significa que o título é reprecificado diariamente com base no preço que o mercado secundário atribuiria a ele agora. O Tesouro Direto usa essa metodologia por exigência regulatória. O objetivo é que o extrato sempre reflita o valor real de liquidação imediata — não uma ilusão contábil.

A marcação a mercado não é punição: é transparência. O CDB com marcação na curva também sofre variação de valor econômico quando os juros mudam — você simplesmente não vê isso no extrato. No Tesouro Direto, a variação aparece porque a regulação exige honestidade sobre o preço corrente do ativo.

Quando a queda no extrato não é perda

Se você carregar o título até o vencimento, a queda de preço ao longo do caminho é economicamente irrelevante. Você vai receber exatamente o que foi contratado: IPCA + a taxa acordada no dia da compra.

Exemplo concreto: você investe R$ 10.000 em Tesouro IPCA+ 2035 com taxa de IPCA + 6,5% em janeiro de 2026. Em 2029, o Banco Central sobe a Selic para conter inflação, as taxas longas sobem para 8% e seu extrato mostra R$ 8.500 — uma queda de 15%. Se você não vender, esse número não tem nenhum efeito sobre o resultado final. Em 2035, você recebe o valor de face corrigido pelo IPCA mais os 6,5% ao ano contratados.

A armadilha é vender durante a queda. Quem vende em 2029 realiza o prejuízo de 15% e nunca vê a recuperação. Quem mantém, entrega o que o contrato promete.

A única forma de transformar a queda contábil em perda real é vender antes do vencimento. Sem venda, sem perda.

Quando a mesma lógica vira oportunidade

O mecanismo que causa queda quando os juros sobem também gera ganho quando os juros caem. Isso cria uma estratégia que investidores profissionais usam ativamente: comprar títulos longos em ciclos de alta de juros para lucrar com a valorização quando os juros caírem.

Se você comprou IPCA + 6,5% e as taxas caem para 5%, seu título passou a pagar 1,5 ponto percentual acima do que o mercado aceita agora. Para equalizar, o preço sobe. Com duration de 8 anos e queda de 1,5% na taxa, o ganho de capital é de aproximadamente 12% sobre o valor investido — além do rendimento do período.

Essa estratégia exige timing de ciclo econômico e tolerância a volatilidade durante o carrego. Não é indicada para reservas ou objetivos de prazo fixo. Mas é real e é como gestores de fundos multimercado montam posições em renda fixa longa.

O que checar antes de comprar qualquer título longo

Antes de escolher um vencimento no Tesouro Direto, quatro variáveis definem a experiência que você vai ter:

  • Prazo até o vencimento: quanto maior, mais oscilação. Vencimentos em 2026 e 2027 têm comportamento muito diferente de 2035 ou 2045.
  • Duration modificada: disponível no site do Tesouro Transparente. É a medida direta de quanto o preço cai para cada 1% de alta nos juros.
  • Cupom semestral ou sem cupom: títulos com pagamento de cupom semestral têm duration menor do que os sem cupom, porque parte do retorno é recebida antecipadamente.
  • Seu prazo real: se existe qualquer chance de precisar do dinheiro antes do vencimento, escolha um vencimento compatível com essa necessidade — ou opte pelo Tesouro Selic, que tem liquidez diária com volatilidade quase zero.

Uma regra prática: o vencimento do título deve ser igual ou anterior à data em que você vai precisar do dinheiro. Qualquer desvio disso transforma marcação a mercado em risco real.

Por que o Tesouro Selic não tem esse problema

O Tesouro Selic é um título pós-fixado indexado à taxa Selic. Sua duration é quase zero porque o preço se ajusta continuamente junto com a taxa — não há descompasso entre o rendimento contratado e o que o mercado paga hoje.

Quando a Selic sobe, o Tesouro Selic passa a render mais imediatamente. Quando cai, rende menos — mas o preço não oscila, porque o título acompanha o movimento em tempo real. Isso o torna adequado para reserva de emergência e objetivos de prazo indeterminado.

O Tesouro IPCA+ e o Tesouro Prefixado, por outro lado, têm taxa travada no momento da compra. Essa característica é o que cria a marcação a mercado: o preço precisa oscilar para que o retorno implícito do título se mantenha competitivo frente às taxas correntes.

A leitura que o extrato não mostra

Marcação a mercado é uma das poucas situações em que a transparência do Tesouro Direto cria mais ansiedade do que a opacidade de outros produtos. O CDB não cai no extrato, mas também está sujeito ao mesmo risco econômico — você simplesmente não vê.

A diferença é que, no Tesouro, o preço oscila porque há um mercado secundário funcionando. Se você precisar vender, tem liquidez diária e recebe o preço corrente. No CDB, sem mercado secundário, a saída antecipada depende de negociação direta com o banco emissor — frequentemente com condições desfavoráveis.

O investidor que entende marcação a mercado para de usar o extrato diário como termômetro de resultado. Ele define um prazo, escolhe um vencimento compatível e ignora a oscilação intermediária. Esse comportamento é o que converte um produto volátil na superfície em um instrumento previsível na prática.

O extrato do Tesouro mostra o preço de hoje. O resultado do investimento é definido pelo prazo que você escolheu — não pela variação diária.

Fontes e referências

Para aprofundar com informação oficial e confiável, consulte também estas referências externas:

Conclusão

Marcação a mercado não é um defeito do Tesouro Direto — é uma consequência da transparência e da liquidez diária que o produto oferece. O extrato negativo não significa que você perdeu dinheiro: significa que o preço de venda imediata caiu, não o valor que você vai receber no vencimento.

Entender duration, a relação inversa entre taxa e preço, e a diferença entre marcação na curva e a mercado transforma a experiência com renda fixa longa. Em vez de reagir ao extrato, você passa a tomar decisões com base no prazo do seu objetivo — que é o único número que realmente importa.

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